Nada de Ashton Kutcher e Alessandra Ambrósio fumando em uma casa noturna de São Paulo. O assunto da semana nas seções de moda foi o sistema de cotas em desfiles da SPFW (São Paulo Fashion Week), que comemora seus 15 anos em 2011.
Na segunda-feira, integrantes da ONG Educafro (Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes) protestaram no Parque do Ibirapuera, na capital paulista. O objetivo era sensibilizar os organizadores do evento a aumentar a participação obrigatória de modelos negros – de 10% para 20% -, visto que o TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) assinado em 2009 expirou no mês passado.
“Queremos abrir mercado a brasileiros afrodescendentes. A SPFW não está na Suíça, mas em um país de maioria negra”, disse Frei David Santos, diretor da ONG.
A polêmica surgiu porque Oskar Metsavaht, estilista da Osklen, buscou um casting 100% afrodescendente, em alusão ao tema da coleção, “Royal Black” (Realeza Negra), e não conseguiu. Apenas 11 dos 37 modelos que entraram na passarela com suas criações, no terceiro dia da edição primavera-verão 2011/2012, eram negros. Ele não fala em porcentagens, mas defende o fim da discriminação.
O organizador da semana de moda, Paulo Borges, por sua vez, afirmou que são as marcas que escolhem seus modelos, embora recomende a cota e tenha adotado um filho negro.
Muito se falou, sim, sobre o assunto. E alguns levantaram a polêmica – ter ou não ter cotas? Mas o que pouco se fez foi uma análise crítica desse cenário.
O universo fashionista nem sempre é justo. É preciso ter traços simétricos, medidas perfeitas e boas doses de atitude, apesar da pouca idade. Aquela ideia exagerada de que alguém vai descobrir uma beleza bruta nas ruas e lapidá-la para a fama está bem longe da realidade dos profissionais da área.
Pelo que sei, a maioria das pessoas que sonha em seguir esse tipo de carreira enfrenta um caminho árduo pela frente. O suporte inicial não é dado pelas agências e sim pela própria família. E como fazer isso em um país que ainda enfrenta os resquísicos do modo de produção escravocrata?
Existem homens e mulheres negros lindos, como o casal global Taís Araújo e Lázaro Ramos. Mas ainda são poucos os que conseguem se destacar. Não pela falta de talento, mas de oportunidades. As cotas talvez não resolvam o problema, mas surgem como uma tentativa. O debate sócio-cultural está novamente em voga. Vamos pensar juntos?
