Definitivamente, alimentar um blog toda semana não é para qualquer um. Para mim, se tornou um hábito quase anual, devido à falta de tempo.
Mas nessas andanças por aí, muita coisa aconteceu na cidade e dentro de mim. Prometo tentar ser mais antenada daqui para a frente.
Mergulhada de corpo e alma nas pautas que abraço (em especial as de cultura), aprendi a gostar de sertanejo, sim. Não que eu fosse uma roqueira bitolada que odeia o mundo country. Longe de mim. Mas há muito tempo não parava para ouvir um CD do gênero de cabo a rabo.
Quando recebi a proposta de um freela para revista sobre o show de Victor & Leo, mal sabia quem era o primeira-voz da dupla e conhecia no máximo umas quatro canções deles.
Um CD, um show e uma entrevista depois, sou mais uma das milhões de fãs dos queridinhos do Brasil. Não é à toa que os irmãos Chaves ganham cada vez mais espaço na mídia. Não é à toda que Victor é o compositor com mais músicas executadas. Eles são bem mais que dois homens bonitos.
Abaixo reproduzo texto feito no fim de novembro do ano passado, quando os artistas se apresentaram em São José do Rio Preto (SP). Espero que gostem.
Metamorfose

Considerado um divisor de águas para Victor & Leo, “Borboletas” se consolida como o álbum mais maduro e original da dupla
São José do Rio Preto, 28 de novembro, 22h30. Congestionamento de carros circunda o recinto de exposições. Chega gente de bota, chapéu e fivela. Também há quem não dispense o vestidinho do verão. Salto alto afunda na areia. Pés desviam de buracos.
Longe das vistas estão Victor e Leo, as únicas estrelas que brilham nesta noite. E um mundaréu de seguranças e caixas de pizza quentinha.
Ultrapassado o primeiro portão sob o olhar fuzilante de fãs premiadas por uma rádio local, a espera continua. Um mal-humorado produtor explica que eles não são goianos nem vão falar sobre a vida pessoal. Dentro do camarim, os irmãos nascidos em Ponte Nova (MG) e criados em Abre Campo são como dois pontos de interrogação para jornalistas e colunistas sociais de plantão.
Uma por uma, as equipes de TV entram na sala, montada atrás do palco. Sem cinegrafista, porém, não se pode fazer mais do que uma pergunta para cada artista. Passar pelo último obstáculo é como um prêmio de consolação por estar de pé há quase uma hora e meia com um gravador cor-de-rosa na mão.
Vitor e Leonardo Chaves Zapalá Pimentel não poderiam ser o oposto da imagem que os consagrou como revelação do sertanejo universitário. E não são.
Victor é sorridente e falastrão. Faz das respostas um discurso bem elaborado para dar colher-de-chá à repórter censurada. Leo é mais tímido, mas não menos agradável. Dispõe-se a uma fala extra com direito a beijinho e abraço de despedida, quando o mesmo produtor pede para encerrar a entrevista.
Mas nem só de beleza e simpatia sobrevive a dupla, que acaba de lançar “Borboletas” – terceiro disco pela Sony/BMG. Até que a fama batesse à porta e concordasse em ficar, foram quase 15 anos de trabalho duro.
Desde 1994, Victor & Leo se dedicam à música. Na época, os dois trocaram o Interior por Belo Horizonte para fazer aulas de canto e iniciar a carreira em bares e casas noturnas. Depois foram para a Capital paulista, onde gravaram seu primeiro CD, pela Number One, em 2002.
Nos anos seguintes, produziram dois álbuns independentes: “Vida Boa” – que por questões mercadológicas não está à venda, assim como o anterior – e “Ao Vivo” – cuja repercussão propiciou contrato com a atual gravadora em 2007, dando origem ao CD homônimo e, conseqüentemente, a seu primeiro disco de ouro.
Ainda naquele ano, os holofotes se acenderiam sobre a dupla com o quarto CD e primeiro DVD, “Ao Vivo em Uberlândia”. Diferentemente de outros artistas do gênero, Victor & Leo tinham mais do que uma música de trabalho. Foram emplacados nas rádios de todo o Brasil hits como “Fada”, “Vida Boa”, “Sinto Falta de Você”, “Amigo Apaixonado”, “Fotos”, “Lembranças de Amor” e “Tem Que Ser Você”, todas escritas por Victor.
“Cada canção tem uma cor. ‘Vida Boa’, fala de um sapo que caiu na lagoa e ficou tão feliz quanto alguém que ama o sertão quando está lá. As pessoas nos perguntam qual o sentido do sapo, da fada… O sentido é metafórico. Basta ouvir e metaforizar”, explica o compositor, que está entre os maiores arrecadadores de direitos autorais do Brasil, na lista do Ecad.
Em 2008, a febre invadiu também o exterior. O CD “Nada es Normal”, gravado entre março e abril, em São Paulo, e lançado em seguida no mercado latino – começando pelo México, passando por outros países e chegando a Porto Rico e Miami (EUA) – traz sucessos novos e antigos, em espanhol. Detalhe: o idioma dos “hermanos” foi aprendido na estrada, entre um compromisso e outro.
“Ficamos muito felizes por levar a outras pessoas um pouco da energia da música brasileira, que é o que fazemos, embora em outra língua”, diz Victor.
De volta às terras tupiniquins, eles partem em turnê com “Borboletas” e colhem os louros por um trabalho maduro e original. São 12 faixas que misturam pop, country rock, chamamé, forró e, claro, baladas românticas. Tudo tem o dedo, ou melhor, a voz forte e aveludada dos mineiros de 33 e 32 anos, respectivamente.
“Temos a preocupação de fazer música sem imitar ninguém. Nossos arranjos, composições e interpretações mostram nossa personalidade”, conta o primeira-voz, Leo.
Característica que explica, em parte, a paixão das mulheres, que gritam desafinadas sem saber se querem chamar a atenção dos ídolos ou das “concorrentes” (como se precisassem de motivo para histerismo). Nem a aliança dourada na mão esquerda de Leo inibe as frases atrevidas e os cartazes na fila do gargarejo daquelas que queria tê-los para sempre em um acústico particular.
Lá pela segunda metade do show de abertura da turnê nacional, Victor conta que, certa vez, a dupla chegou em um bar para tocar e não havia público. Então apareceu um senhor e ficou esperando pela primeira música. Hoje, rodeado por um mar (ou jardim, se preferir) de pessoas, diz com humildade que valoriza a presença de cada um.
A faixa-título abre a seleção feita em estúdio, com letra sobre transformações pessoais.
“‘Borboletas’ traz uma visão diferente de ‘Fada’, que é mais romântica. É um divisor de águas. Assim como as borboletas se metamorfoseiam para alcançarem vôos mais altos, a gente está sempre mudando afetivamente. A canção se tornou título por isso. Temos a intenção de nos modificar para melhorar sempre”, define Victor.
No palco, entretanto, é a boa e velha “Fada” que abre passagem para as asas de sua sucessora. Uma forma de esquentar o coro para que a platéia cante sozinha enquanto papéis picados voam pelo ar e a banda formada por Ivan Corrêa (contrabaixo), Alexandre de Jesus (percussão), Luciano Passos (acordeom) e Leo Pires (bateria) cuida da melodia.
“Nada Normal”, “Sem Trânsito, Sem Avião” e a faixa-bônus “Tem que Ser Você” – trilha sonora da novela “A Favorita”, exibida pela rede Globo – estão garantidas no repertório, entre clássicos do sertanejo como “60 Dias Apaixonado”, de Chitãozinho e Xororó, e canções próprias de produções passadas. As demais inéditas constam na “bolachinha”, que o ambulante carrega em meio a faixas de cabelo com letras luminosas e fotos, como se fosse um tesouro.
“Lado Errado”, “Timidez”, “Tanta Solidão”, “Luz, Paixão, Rodeio”, “Noite Estelar”, “Razão do Meu Astral”, “Você Sabia” e “Deus e Eu no Sertão” completam a coleção, que tem espaço para histórias de amor (longe da tradicional dor-de-cotovelo e dos refrões com duplo sentido) e também para letras poéticas sobre a beleza da vida no campo; que podem ser para dançar ou para se emocionar (de preferência com alguém especial do lado).
Neste ano, a dupla pretende continuar com os pés no chão e a cabeça no céu.
“Pode ser que a gente grave alguma outra coisa, talvez um DVD. Mas se for para gravar, será no meio do ano, para lançar no final. Ou seja, o que vai rolar agora é ‘Borboletas’, para que as pessoas tenham a oportunidade de absorver o que a gente quer passar com este trabalho”, completa Victor, com o sorriso de quem está no caminho certo.
As cortinas se fecham. Eles reaparecem mais perto dos olhos. E das mãos. Tocá-los é como um prêmio de consolação para elas, por mais de uma hora e meia de fidelidade. Missão cumprida.